O movimento que parte do Ocidente cristão e dá origem a tudo o que hoje se chama protestante e evangélico. Começa com um monge agostiniano — da ordem fundada sob a regra de Agostinho de Hipona, o teólogo do século V mais lido do Ocidente — questionando a venda de indulgências, e termina reorganizando a fé de metade da Europa. A imprensa de Gutenberg foi decisiva: as teses de 1517 circularam pela Alemanha em semanas.
Protestante vem do protesto de príncipes alemães em 1529, contra a decisão que proibia a reforma em seus territórios.
A Escritura acima da tradição, a justificação pela fé, e o sacerdócio de todos os crentes — a ideia de que o fiel comum tem acesso direto a Deus, sem intermediário humano.
Culto no idioma do povo, canto congregacional, pregação no centro e apenas dois sacramentos: batismo e ceia.
Tirou a autoridade final do magistério e a colocou na Escritura; e tirou o fundamento da salvação do mérito e o colocou na graça recebida pela fé.
Três hábitos se firmam aqui e continuam. A congregação inteira canta, e não só o coro. A Bíblia é lida em casa, no idioma do povo. E o pastor pode casar: Lutero casou com Catarina de Bora em 1525, e a casa do pastor virou parte da paisagem protestante.
A Reforma tirou as regras obrigatórias de comida. O estopim, em Zurique, foi uma refeição: na Quaresma de 1522 um grupo comeu linguiça em pleno jejum, e Zuínglio pregou logo depois que a Escritura não obrigava ninguém àquilo. Desde então as igrejas da Reforma em geral não têm alimento proibido; o jejum existe, mas como escolha de cada um. A proibição do álcool, comum nas igrejas evangélicas brasileiras, não vem da Reforma: vem do movimento de temperança do século XIX, que chegou aqui pelas missões. A proibição do álcool, comum nas igrejas evangélicas brasileiras, não vem da Reforma: vem do movimento de temperança do século XIX, que chegou aqui pelas missões.
A Rosa de Lutero: uma cruz preta dentro de um coração vermelho, sobre uma rosa branca. Lutero desenhou e explicou cada parte em carta.
O canto congregacional nasce aqui. Antes, quem cantava na igreja era o coro; a Reforma põe o hino na boca do povo, na língua do povo.
31 de outubro é o Dia da Reforma, data das 95 teses, em 1517, e luteranos e reformados o marcam no culto. A Reforma também mexeu no calendário da fé, e não do mesmo jeito em toda parte: luteranos e anglicanos mantiveram o ano litúrgico, com Advento, Natal, Quaresma e Páscoa; a linha reformada e os puritanos cortaram boa parte das festas, e o Parlamento inglês chegou a proibir a celebração do Natal em 1647 — proibição que caiu em 1660, com a volta da monarquia.
Costume não é doutrina. O que está aqui varia de congregação para congregação, de região para região e de geração para geração — e muita coisa que já foi regra hoje é escolha de cada comunidade.
Escondido no castelo de Wartburg, sob nome falso, Lutero traduziu o Novo Testamento inteiro para o alemão em cerca de onze semanas. A imprensa recém-inventada espalhou o texto mais rápido do que qualquer autoridade conseguiu recolher.
As mesmas coisas têm nomes diferentes em cada tradição. Saber o nome certo é o primeiro passo para entender de dentro.
Duas ressalvas. A primeira: Lutero não queria fundar igreja nova — queria corrigir a que existia. A separação foi consequência, não plano inicial. A segunda é dura e precisa estar aqui: em 1523 Lutero escreveu com simpatia sobre os judeus, em "Que Jesus Cristo nasceu judeu"; vinte anos depois, em 1543, escreveu "Sobre os judeus e suas mentiras", com recomendações violentas que os nazistas viriam a reimprimir. As igrejas luteranas repudiaram formalmente esses escritos no século XX — a Federação Luterana Mundial em 1984, e igrejas nacionais depois dela, inclusive no Brasil. Um site que começa a árvore no judaísmo não pode calar isso.
A Reforma é um acontecimento, não uma igreja. Tudo o que nasceu dela está nas páginas dos galhos, do luteranismo em diante.