A ruptura entre Roma e Constantinopla — o Ocidente latino e o Oriente grego. Não foi a primeira divisão do cristianismo: seiscentos anos antes, em 451, as igrejas ortodoxas orientais já haviam se separado em Calcedônia. Foi, sim, a que partiu ao meio a parte que até então seguira junta.
Cisma vem do grego schisma, "rasgo".
Os pontos em disputa: a autoridade do bispo de Roma sobre toda a Igreja, e a cláusula filioque acrescentada ao Credo no Ocidente, dizendo que o Espírito procede do Pai "e do Filho".
Cada lado segue com a liturgia que já vinha desenvolvendo, e a distância litúrgica aumenta com o tempo.
Não nasceu uma fé nova. Uma parte da cristandade que caminhava junta desde Calcedônia se partiu em duas, e cada metade seguiu o próprio caminho.
O Cisma é um acontecimento, não uma comunidade: os costumes de cada lado estão nas páginas da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa.
Aqui a comida virou motivo de briga. Um dos pontos da disputa de 1054 foi o pão da Eucaristia: o Ocidente usava pão sem fermento, o Oriente usava pão fermentado, e cada lado acusou o outro de estar errado. Entrou na lista também o jejum de sábado, praticado em Roma e não no Oriente. Parecem detalhes vistos de fora, e não são: para o Oriente o pão fermentado é sinal de Cristo ressuscitado, e a questão nunca se encerrou. Naquele momento eram o sinal de que as duas metades já não viviam a mesma vida.
Um cisma não tem emblema. O que ficou como marca dele é uma palavra acrescentada ao Credo no Ocidente: o filioque. Ela não nasceu do Cisma — já corria no Ocidente havia séculos, e Roma a assumiu por volta de 1014, quarenta anos antes das excomunhões. Ela não nasceu do Cisma — já corria no Ocidente havia séculos, e Roma a assumiu por volta de 1014, quarenta anos antes das excomunhões.
A separação não criou música nova: o canto gregoriano no Ocidente e o bizantino no Oriente já existiam antes de 1054.
A diferença de calendário entre Oriente e Ocidente não vem do Cisma: vem de 1582, quando Roma trocou o calendário juliano pelo gregoriano — mais de cinco séculos depois. E desde 1923 boa parte das igrejas ortodoxas passou a usar um calendário corrigido para as festas fixas: o Natal delas cai em 25 de dezembro, como o nosso. A Páscoa é que segue pelo cálculo antigo, em quase todas.
Costume não é doutrina. O que está aqui varia de congregação para congregação, de região para região e de geração para geração — e muita coisa que já foi regra hoje é escolha de cada comunidade.
As excomunhões trocadas em 1054 só foram formalmente retiradas em 1965 — pelo papa Paulo VI e pelo patriarca Atenágoras. Novecentos e onze anos depois.
As mesmas coisas têm nomes diferentes em cada tradição. Saber o nome certo é o primeiro passo para entender de dentro.
Foi um processo longo, não um único dia. As excomunhões de 1054 marcam o ponto, mas as causas vinham de séculos — e havia também distância política, cultural e de idioma entre grego e latim. Muitos historiadores apontam o saque de Constantinopla pelos cruzados, em 1204, como a ferida que tornou a separação definitiva.
Um cisma não tem seguidores, tem dois lados. Quem veio de cada um deles está nas páginas da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa.