Em 313 o Édito de Milão põe fim à perseguição. Em 325 o Concílio de Niceia reúne bispos de todo o Império para responder a uma pergunta: quem é Jesus em relação ao Pai? A resposta vira o Credo. O texto que se reza nas igrejas até hoje, porém, é o de 381, ampliado no Concílio de Constantinopla — é ele que traz a parte sobre o Espírito Santo.
Niceia é a cidade onde o concílio se reuniu, na atual Turquia.
Que o Filho é da mesma substância do Pai — homoousios —, e não uma criatura. É a resposta à tese de Ário, presbítero de Alexandria, para quem o Filho teria sido criado pelo Pai. Quem mais combateu essa tese foi Atanásio, também de Alexandria, que por isso foi exilado cinco vezes.
A liturgia começa a se organizar, e o Credo passa a ser recitado no culto — costume que segue vivo em várias tradições até hoje.
A fé deixa de ser perseguida, ganha forma escrita comum e, com isso, também ganha vínculo com o poder do Império — o que traz consequências para os séculos seguintes.
Na maior parte das igrejas que o usam — católica, ortodoxa, anglicana, luterana e outras — o Credo é recitado de pé, por todos juntos, no culto de domingo. É um dos pouquíssimos textos que um católico de Roma, um grego ortodoxo e um luterano dizem quase com as mesmas palavras. Quase: no Ocidente entrou a expressão filioque. O Oriente objeta a duas coisas — ao que ela diz, e ao fato de o Ocidente ter alterado sozinho um texto de concílio ecumênico. Os greco-católicos melquitas e ucranianos, que são católicos, rezam o Credo sem ela. Em muitas igrejas evangélicas o Credo não é recitado no culto. Algumas o têm como bom resumo da fé e simplesmente não usam credo na liturgia; outras recusam credos por princípio, entendendo que essa autoridade é só da Escritura.
Um credo é uma declaração de fé; não traz regra de comida.
O nome antigo do Credo é justamente este: Símbolo. A explicação mais repetida vem do grego symbolon, a ficha partida em duas que servia para uma pessoa se identificar diante de outra — quem sabia o texto mostrava de que fé era. Daí se dizer Símbolo de Niceia, ou Símbolo dos Apóstolos.
O Credo é um dos textos mais musicados da história. Na missa em latim ele é cantado em melodias gregorianas, e virou parte fixa das missas que compositores como Palestrina, Bach e Mozart puseram em música. Na Divina Liturgia bizantina costuma ser dito ou cantado pela assembleia, e não por um coro enquanto os outros escutam.
O Concílio de Niceia, em 325, decidiu que todas as igrejas celebrariam a Páscoa num mesmo domingo, e não na data em que caísse a Páscoa judaica. A conta exata foi acertada depois, em Alexandria. A regra continua a mesma no Oriente e no Ocidente até hoje — o que mudou foi o calendário e as tábuas lunares usadas para aplicá-la, e é por isso que as duas Páscoas quase sempre caem em dias diferentes. Parte da tradição ortodoxa acrescenta ainda que a Páscoa não deve vir antes da Páscoa judaica.
Costume não é doutrina. O que está aqui varia de congregação para congregação, de região para região e de geração para geração — e muita coisa que já foi regra hoje é escolha de cada comunidade.
A maior discussão de Niceia girou em torno de uma única letra grega. Homoousios quer dizer "da mesma substância"; homoiousios, "de substância semelhante". Um iota separava as duas palavras — e é daí que vem a expressão "não muda um iota".
As mesmas coisas têm nomes diferentes em cada tradição. Saber o nome certo é o primeiro passo para entender de dentro.
Niceia não encerrou a discussão no mesmo dia. O arianismo seguiu forte por mais de cinquenta anos depois de 325, houve imperador ariano e bispos depostos e exilados dos dois lados. E o Credo mais rezado no mundo é o niceno-constantinopolitano, de 381 — chamar de "Credo de Niceia" é costume, não precisão.
Não há lista porque a lista seria a árvore inteira. O Credo é rezado ou aceito por igrejas de quase todos os ramos que estão aqui, e escolher alguns nomes daria a entender que os outros ficaram de fora.